ERA UMA VEZ UMA VILA...
 

 

Por Silvana Duailibe

Quando Magui, minha cabeleireira, me disse, pelo telefone, que agora estava trabalhando num salão no centro da cidade, fiquei um pouco contrariada, confesso. Isso era uma péssima notícia para quem tem a vida totalmente voltada para bairros do lado oposto àquele. Mas, pelos serviços de Magnólia, eu iria enfrentar a dificuldade. Teria de me planejar um pouco mais, talvez buscar novas alternativas de horário, enfim, mas eu iria tentar.

Fazia quase um ano que eu não ia ao centro e, que eu me lembre, da última vez que fui, andei apenas pela periferia dele e, ainda assim, apressadamente.

Dessa vez, a luz dourada do final da tarde de um sábado e a própria calma do momento favoreceram que eu vivenciasse emoções mais profundas e abrangentes. Veio uma saudade diferente, daquelas que não doem, mas que fincam na alma da gente a nostalgia e uma certa urgência de buscar por pessoas que ficaram lá atrás, como se elas guardassem algo que se perdeu na gente ou como se representassem um braço da nossa infância e adolescência capaz de nos puxar para dentro de uma máquina do tempo...

O novo salão da Magui fica num labirinto de lojas, dentro de um labirinto de ruelas típicos dos centros históricos adaptados a necessidades mais modernas. Para chegar até lá, são inúmeras curvas e reentrâncias, além de fileiras e mais fileiras de cubículos, ostentando vitrines de gosto duvidoso e preços altamente convidativos. Um verdadeiro mercado de tudo!

Quando saí de lá, a noite já havia caído. A essa hora, num final de semana, o centro é de uma atmosfera fantasmagórica! O impacto só não foi maior, ao chegar à rua, porque ainda havia movimento em um bar próximo e a música horrorosa que tocava era a própria assombração!

Saímos todos juntos, eu, Magnólia, a sua assistente e o gerente do mini “shopping”, que ainda checava algumas coisas lá dentro.

Interessante, eu pensei, é essa tendência em todas as cidades de ter o seu centro, com o tempo, transformado em reduto do baixo comércio e da mendicância... Por isso se fala tanto na tal da revitalização dos centros. Como será permanecer morando lá, teimosamente, a despeito do desconforto de ter distantes os melhores serviços?

Parei o carro numa esquina iluminada e rabisquei numa parede branca, com o meu batom carmim, um coração bem grande com as palavras:  O CENTRO DA CIDADE É LINDO! CUIDEMOS DELE!

Fiz aquilo por puro impulso, sem pensar no risco de descer do carro àquela hora, sozinha, nem no batom, que se perdeu inteiro ali, muito menos em como interpretariam aquele apelo meio infantil... Fiz por amor à cidade e às minhas mais doces lembranças... E pronto.

Passei ainda um bom tempo circulando por aquelas ruas e ladeiras e vendo, diante dos meus olhos, atravessarem dias de sol iluminados e nós, meninas do Colégio Santa Teresa, chupando picolé na porta da escola, com uniformes de ginástica... Vi as nossas tardes festivas, em vários endereços bem próximos, onde fazíamos trabalhos de equipe, como os da dona Eulina, o terror de Geografia!... Vi a menininha lourinha, de vestido xadrez atravessando a praça Odorico Mendes, em direção à rua Rio Branco, para as suas aulas particulares de Matemática.

A praça Gonçalves Dias me pareceu tão menor! Era noite, mas ela estava cheia de gente e a igreja estava aberta. Desci novamente do carro e caminhei até o coreto branco, lindo e imponente, no final da praça. Andar de bicicleta ali era uma aventura. A meninada da rua das Hortas, da Rio Branco e da Coelho Neto se reunia lá, várias tardes por semana, para disputar corridas e para mostrar uns aos outros aros, freios e buzinas novos de bikes calejadas pelas quedas (ah, as manchas e cicatrizes espalhadas pelas pernas!) Uma delícia! Mas, aqueles desenhos ornamentais no chão da praça, que antes pareciam não ter fim, agora, além de desbotados, eram muito menores e mais limitados do que na minha memória!...

“Passar o dia na casa de...” era uma expressão comum, naquela época, prática que não se vê mais. E eu passei vários dias em casas de vários primos e amigas, brincando na rua e saindo a pé para o cinema ou para a missa, tal era a tranqüilidade e a proximidade de tudo. A minha casa também foi várias vezes preparada para receber a “turma”, o que era um acontecimento muito feliz para os nossos corações tão jovens!

As nossas festas de aniversário eram alegremente comemoradas entre as apertadas paredes dos terraços e garagens das nossas casas. E eram maravilhosas! Festinhas para comemorar o início das férias também eram preparadas com esmero e ansiosamente aguardadas, mas sem grandes artifícios e dentro das limitadas áreas disponíveis. Felizes os que contavam com salas mais amplas, jardins ou mesmo quintais! Grandes acontecimentos em exíguos e simples espaços. E tudo era tão perfeito!...

A rua da Paz e a rua do Sol, a própria avenida Beira Mar, a inesquecível rua Grande, que era o símbolo das nossas grandes compras , todos os lugares que, naqueles velhos tempos, me davam canseira só de pensar em percorrer, me pareceram caminhos estreitos e curtos demais, agora!

A cidade encolheu? Não. A nossa vida expandiu. Mas, expandiu como, se não cresceu, proporcionalmente, a minha felicidade, em comparação com a felicidade daquele tempo distante?... A cidade ganhou volume, as distâncias se ampliaram, as perspectivas mudaram e o meu olhar, certamente, mudou. Mas, a felicidade nada tem a ver com isso.

Deixei aquela parte da cidade como quem deixa uma parte de si guardada lá. No caminho para casa, me ocorreram mais e mais lembranças... Na verdade, aquela tarde detonou em minha mente um turbilhão de reminiscências que não pararam mais, me levando a freqüentes “flash backs”. Todas, lembranças grandiosas numa cidade que era tão pequena!

 

 

(Todas as segundas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).

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