Por Silvana Duailibe
Um colega do doutorado contou-nos uma história interessante: ele almejava muito um determinado emprego que, finalmente, estava às vésperas de conseguir. O único problema era o certificado da especialização, que o habilitaria ao cargo, mas que, até então, não havia sido liberado, por razões burocráticas que não vêm ao caso.
Não havia prova; apenas o exame dos currículos dos candidatos, além de uma sempre providencial “ajudazinha” de pessoas influentes, como é comum acontecer. Ele, no entanto, não contava muito com esse segundo item e se amparava nos anos de experiência, nos cargos anteriores ao que pleiteava agora, nos diversos cursos que já fizera e naquele ótimo certificado, que o diferenciaria, de fato.
Ele estava casado há cinco anos, tinha uma filha de quatro e um débito com a casa própria que o motivara a procurar mais trabalho e mais renda, a fim de que a vida não se tornasse tão restritiva e pesada.
Bem, o certificado, tão necessário para aquela definição, não foi liberado nem com promessas e velas para todos os santos e ele perdeu a oportunidade.
O colega ficou mal, entrou numa roda-viva de plantões, a fim de sanar as dívidas e acabou comprometendo a própria saúde. O resultado dos meses de aperto foi uma tremenda depressão, seguida de gripes sucessivas que resultaram numa pneumonia.
Devastado pelas doenças e completamente nocauteado pelas circunstâncias, ele não esperava que as coisas piorassem ainda mais, porém pioraram. A esposa, antes tão compreensiva e colaboradora, agora não o via mais como provedor, mas como um peso quase morto, sentiu-se traída e foi procurar a felicidade em outros lugares. Ele foi ao fundo do poço!
A família, então, se reuniu e, em mutirão, resolveu ajudá-lo. Seus pais e irmãos cavaram e conseguiram um estágio no Canadá, país conveniado com a faculdade onde o colega lecionava e, com uma bolsa irrisória, porém importante, naquele momento, lá se foi ele, curado dos males físicos, mas com a alma em frangalhos... Ele, um profissional já formado e com tempo de estrada, iria para uma terra estranha, se submeter a ser um mero estagiário, numa equipe de profissionais que ele mal conhecia, ganhando mal e contando, novamente, com a família para sustentá-lo, já que ficara com a parte podre na separação – a dívida da casa e os encargos dos advogados. A filha, a casa, o consultório, a faculdade e o ambulatório ficaram para trás e ele sequer sabia por quanto tempo, exatamente.
Hoje, ele está casado novamente com uma brasileira que conheceu no Canadá, tem um garotinho de meses, voltou para o Brasil, depois de um longo e gélido período de dor e solidão, retomou parte das suas antigas atividades e é indisfarçável o brilho da alegria que transmite no olhar, aquele brilho que somente as pessoas felizes conseguem sustentar.
A sua história nos leva a muitas outras parecidas, onde recomeçar parece quase impossível, de tão doloroso que é. Como a própria palavra indica, é um começar de novo, sem emoções virgens, mas sim carregadas de muito peso. Desse modo, as costas precisarão ser fortes para agüentar a carga de velhos e de novos sofrimentos. Entretanto, se estamos vivos, sempre há possibilidades. Fixar-se nessa idéia ajuda bastante.
Encontrar brechas nos paredões é tarefa para bravos e eu percebo que as forças que nos regem gostam disso, pois sempre dão um empurrãozinho... Ninguém gosta de covardes, afinal!
Abrir picadas na mata e desvendar caminhos na vida são a mesma coisa; exigem um esforço enorme, coragem e persistência. Imagine só fazer e ter de refazer!
Fecham-se portas, abrem-se janelas... Isso significa, antes de mais nada, que coisas concretas podem acontecer, que nos impeçam de seguir adiante, em trilhas já traçadas, mas que nada é mais precioso do que as janelas que descortinam e nos permitem ver longe. Pelas portas, se entra e se sai... Pelas janelas, se sonha, se vislumbra e se realiza.
(Todas as segundas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).
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