COMPROMISSO? O QUE É ISSO?
 

Por Silvana Duailibe

Sou de uma geração muito sofrida, que assumiu o preço da revolução sexual e da ruptura dos mais antigos padrões de comportamento.

Imagine quanto se pagou por isso!... Nós, que nascemos em famílias arraigadas a costumes antigos e a pensamentos cristalizados, precisamos nos moldar a novos paradigmas, convivendo com os antigos, todos os dias, dentro de casa... Não foi nada, nada fácil!

Sair às ruas e reivindicar era comum. Engajar-se e defender idéias, também.

Nunca antes, a música popular brasileira teve tanto protesto! Eu não diria que, nesses vinte anos marcantes, que compreenderam as décadas de sessenta e de setenta, nós obtivemos o maior salto na nossa qualidade musical, porque isso seria um exagero, além de uma injustiça, mas, sem dúvida, era uma poesia mesclada de sutilezas políticas importantes para qualquer época, o que nos ajudava a pensar o social e nos alimentava a alma, sedenta por reformas.

Hoje, analisando um pouco o perfil das gerações, um aspecto me salta aos olhos – uma espécie de alienação crescente aconteceu. Parece que, depois de tanta luta, veio a apatia...

A impressão que tenho é a de que os filhos do pessoal do anos 60 e 70 se cansaram de tanta ação e resolveram acomodar as emoções, partindo em busca de um bem estar meramente pessoal. Afinal, pensar no coletivo dá trabalho demais e dinheiro de menos.

Vieram os yuppies e os pós-yuppies, os “bobos”, que nada têm a ver com o adjetivo conhecido por nós, mas sim é uma abreviatura da expressão francesa “bourgeois bohemians”, ou boêmios burgueses, uma geração que transgride sem agredir e gasta muito com farras, sem culpas e sem compromisso.

Fico pensando nos bebês que nasceram há pouco tempo e nas gerações que estão por vir e tenho, cá com meus botões, uma opinião: creio que, como canta o brega sertanejo Gustavo Lima, “o mundo é uma bola”, mesmo, ou seja, damos voltas. Do rude passamos ao tradicional, deste, ao revolucionário, depois ao consumismo, seguido da preocupação ambiental e da reviravolta tecnológica; caminhamos para um romantismo burguês tecnocrata meio enviesado e recortado por matizes individualistas... A mim parece um giro, provavelmente de 360 graus, com tendências a retornarmos ao começo.

Bem, mas, na melhor das hipóteses, vamos nos aprimorando e, quem sabe, conquistando espaços e circunstâncias melhores de vida e de relacionamento, no futuro...

A meu ver, no entanto, hoje, estamos diante de um mundo bastante hostil, do ponto de vista interpessoal. Se conversarmos com um jovem de vinte e poucos anos, nos dias atuais, dificilmente ultrapassaremos a barreira do seu mundinho particular e dos seus amigos; no máximo, obteremos uma pálida expressão de desgosto pelo “status quo” e quase nenhuma idéia sobre saídas, soluções ou sugestões.

Nas suas relações afetivo-sexuais, esses jovens também são reticentes, mas pragmáticos. Se “ficar” é a ordem do momento, ficamos e não se fala mais nisso. Se alguma coisa mais elaborada como o amor surgir, aplica-se para ele a lei de mercado – investe-se enquanto houver rentabilidade, apenas.

Diante de tanta fluidez, o que é “ter comprometimento” com alguma coisa? Definitivamente, as gerações Bobos e Z, as mais atuais, não sabem o que isso significa.

Ser comprometido com algo ou com alguém dá muito trabalho, envolve riscos e implica em abrir mão, freqüentemente, do seu casulo.

Por que me atirar no mundo, se eu posso me dirigir a ele através de um celular ou da tela de um computador? Por que escolher apenas um beijo, se eu posso ter quantos eu desejar, num curtíssimo período de tempo? Por que me entregar de corpo e alma a uma profissão se ela não me facilitar a compra de todos os bens de consumo sonhados e idealizados por mim?

A soma de todas essas pequenas mas fundamentais equações resulta no compromisso capenga, no envolvimento meia-boca e tudo vira um imenso faz de conta.

O professor finge que ensina, o aluno finge que aprende. O pai finge que educa, o filho finge que segue. A namorada finge que ama, o namorado também. O funcionário finge que trabalha, o patrão finge que acredita...

Enfim, se as pessoas fingem uma seriedade e uma responsabilidade que não têm, enclausurados estamos. E o mundo vai dando as suas voltas, aglutinando uns e esmagando outros, mas não poupando absolutamente ninguém.

 

(Todas as segundas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).

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