EU ESTIVE LÁ... POR SILVANA DUAILIBE
 

Lá é um lugar que existe... Ou não?

Só sei dizer que fui e voltei, várias vezes.

A praia era deserta, bonita e o sol se punha... A revoada de pássaros vermelhos transformava tudo numa grande mancha vermelha que ia subindo pelas paredes até o teto. O cheiro era de pecado, mas eu não identificava exatamente qual. Havia rostos, muitos, que atravessavam na minha frente, alguns conhecidos, outros totalmente estranhos. E havia a memória... Ah, essa interminável memória!...

A fachada era de mármore, o chão de pedra e as colunas romanas soberbas e aparentemente sólidas recebiam a luz dourada do fim de tarde. A revoada de pássaros vermelhos vinha, ultrapassava aquelas colunas e eu sentia como se tivesse me atravessado o corpo e a alma... Um calafrio me subia e as colunas se rachavam... Um abalo sísmico vindo daquela névoa vermelha rompera a base de edificação tão resistente! Incrível e assustador!

A intervalos que eu não sei precisar de quanto tempo, o teto descia, ou era a cama que subia, ou eram as duas coisas, simultaneamente... E a minha sensação era de sufocamento. Nunca havia pessoas por perto, nesses momentos, e eu me desesperava porque não havia a quem pedir socorro.  Eu ouvia, com clareza, o bombeamento que me aproximava mais e mais do teto, mas assistia a tudo imóvel e incapaz. De repente, antes que eu fosse esmagada, ali, a “bomba” relaxava e o ar ia se soltando, com aquele barulhinho característico. Defeitos na pintura da parede que haviam sumido, com a descida do teto, voltavam a aparecer...

Quando eu ficava bem próxima do teto, aquela luminária de gás mercúrio também se modificava. De branca, a luz se mudava em amarela e um filete de gordura começava a percorrer a lâmpada por dentro, rapidamente tomando conta de tudo e deixando o ambiente opaco, como se fossem as lentes sujas de uma câmera... Havia luz na parede também e aquele azeite que a tudo nublava também a invadia. Então, eu pensava: estão fazendo uma lavagem cerebral aqui. A gordura retirada do meu corpo agora se infiltra por toda parte e isso quer dizer alguma coisa... Mas, o que?... Então, eu sentia o peso e o calor do hálito de alguém no meu ouvido, sussurrando: “foi a sua filha que providenciou tudo isso; ela te quer viva e sã.” Mas, eu não entendia o que aquilo queria dizer...

Começava, então, a parte mais dolorosa do processo – o aparecimento de bengalas... Sim, bengalas! Elas iam se formando na minha frente, como desenhos feitos por uma mão invisível e extremamente precisa. Meu pai surgia, pálido, congelado, mas vivaz o suficiente para me apontar na direção de imagens que se sucediam, com a mesma velocidade da evolução da formação das bengalas... A cada imagem de pessoas e de situações que meu pai apontava, uma bengala maior ou menor se formava. Então, ele falava comigo. Dizia: “cuidado”. E só.

Essa seqüência enlouquecida de vivências se refletia em mim com uma perturbada agitação. Eu não conseguia dormir, mas também não conseguia acordar. Minha comunicação com o mundo real era zero, mas, quem sabe, também não fosse total?

Alguma vez, você já se sentiu assim, no meio de um sonho que é realidade, mas que, ao mesmo tempo, é muito mais realidade do que sonho?

Eu fiquei em coma, por três longuíssimos dias e posso afirmar que não é descanso; não se dorme; é pura loucura, é abalo, é desassossego, é alvoroço!...

Pensei muito, antes de escrever sobre isso, porque já ouvi todas as explicações possíveis, percebi muitas restrições e até um certo preconceito, mas acredito que essa tenha sido uma miscelânea de vivências concentradas e não consigo me furtar ao impulso de dividir essa experiência com outras pessoas e, quiçá, aplacar o desconforto e acalmar a perturbação advinda dessas lembranças...

Quando acordei, lembrava de absolutamente tudo, mas voltar à realidade foi gradual e, antes de mais nada, movediço. Eu não sabia direito e ainda não sei em que território piso. Não dá para ignorar que coisas que aconteceram depois tiveram uma ligação evidente com esses delírios, nem que a presença muito forte do meu pai, falecido há cinco anos, então,  apontando cuidados representou mudanças importantes que vieram depois.

Médicos me dizem que a química pesada injetada em um paciente em coma o levam a verdadeiras viagens psicodélicas. Psicólogos afirmam que o inconsciente vem à tona, quando mergulhamos em sono profundo. Espíritas e esotéricos me explicaram que eu vivi um despojamento do corpo, no qual o espírito, livre, teve livre trânsito entre as várias dimensões existentes...

“Eu só sei que nada sei”, como disse muito bem o filósofo grego Sócrates.

Talvez, os mistérios entre o céu e a terra estejam guardados em tantos lugares diferentes que jamais consigamos decifrá-los de verdade, pela nossa pobre capacidade de enxergar o desconhecido ou pelo nosso orgulho em não reconhecer as nossas limitações.

Eu vivi uma experiência perturbadora que, provavelmente, nunca ficará totalmente clara na minha cabeça, mas que, sem dúvida nenhuma, me deixou mais aberta ainda e ainda mais humilde diante da vida.

Todas as segundas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).

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