Por Silvana Duailibe
De acordo com Mário Lago, compositor da década de 40, mulher de verdade era aquela que tudo suportava, de geladeira vazia a traição, passiva, conformada e, ainda por cima, achando tudo lindo. Bem, aquela era uma representante do seu tempo.
As coisas mudaram de lá para cá... Ah, se mudaram!...
O marco feminista dos anos sessenta trouxe uma roupagem nova a grande parte das mulheres do ocidente, que, auxiliadas por novos códigos, passaram de felizes ou infelizes “mantidas e providas” a alegres “provedoras” de si mesmas. Mas, paremos, aqui, para um cálculo importante: de 1960 para cá são exatos 51 anos. E dos primórdios da civilização até Betty Friedam e a queima dos sutiãs, quantos anos se passaram? Dezenas e centenas de milhares.
Traduzindo, então: houve uma mudança de paradigmas, em um tempo recorde, o que, no entanto, não representa muito em comparação com os milhares e milhares de anos que esculpiram, bruniram e cristalizaram os principais mandamentos de conduta.
Esses sedimentos são os nossos aprendizados culturais, que têm a força de um tsunami e são um misto de moralismo, cinismo, religião, oportunismo e capitalismo. Eles estabelecem normas, que dizem o seguinte: a mulher, para ser feminina, deve mostrar fragilidade, o macho dominante é aquele que sustenta e orienta, a fêmea deve seduzir pelas formas e o macho pelo poder, às fêmeas, beleza e artimanhas, aos machos, força e estratégia.
Nós, as mulheres do pós-feminismo, ainda estamos em processo de transformação, mas arcamos com o fardo de sermos atuais e tradicionais, ao mesmo tempo, de sermos responsáveis por casa, marido e filhos, mas também por contas, qualificações e altas discussões. Porém, nem de longe, essa seria uma característica “Amélia”, pois voz é o que não nos falta!
Assim como os homens, no processo natural da evolução, perdemos o rabo, que nos fornecia mais equilíbrio, mas, em compensação, ganhamos mais volume na massa cinzenta. Epa, será?
“Pera aí”! Nem todas perdemos o rabo, eis a questão. Ao contrário, muitas de nós ganhamos mais rabo, em troca de menos cérebro. Faz parte de uma negociação.
As Amélias do século passado sofriam a desilusão da perda ou da falta. As verdadeiras Amélias modernas, que continuam o protótipo da mulher frágil e desprotegida, não estão a fim de perder nada, no entanto, principalmente tempo. Dessa forma, investem em fórmulas rápidas de conquista.
Evoluir exercitando os neurônios demanda muito mais sacrifício do que galgar melhores posições malhando a bunda e injetando silicone! Ou seja, o nosso rabo ancestral mantém o seu efeito estabilizador – ele deixa essas mulheres mais confiantes da sua competência.
É bem verdade que nem todas já tenham conquistado os picos da pirâmide econômica e social, mas a esperança é o seu forte e elas insistem, talvez porque, na maioria das vezes, dá certo. Quer ver?
Experimente sair à noite bonita, bem vestida e chique. Você está um arraso, é claro, mas vai ficar num canto, observando as suas colegas “sexies” se esbaldando no bar ou na pista de dança e se perguntando o que leva aquelas mulheres, em tão grande número, a se padronizarem tanto e por tão pouco, espremidas em seu clássico uniforme: vestidos colados ao corpo (os “bondage dress”), curtíssimos e decotados, tudo ao mesmo tempo, sapatos com saltos de dar vertigem e risco de fraturas e a inevitável lordose lombar, que projeta, forçadamente, todas as bundas para trás, aumentando a impressão de que as criaturas vão cair das alturas, a qualquer momento.
Na modernidade dos nossos dias, é tudo muito antigo. Talvez, a única e verdadeira contemporaneidade seja o fato de que, hoje, qualquer mulher com um mínimo de capital pode se transformar numa deusa, graças à parafernália tecnológica e científica disponível.
De resto, é o nosso novo velho mundo de sempre e as novas Amélias, apesar de mais livres, mais agressivas e com maior acesso à informação, continuam aí, submissas às velhas normas e, cada vez mais jovens, repetindo: “O que se há de fazer?”
Existe um termo bastante pejorativo para elas, mas eu prefiro chamá-las de Novas Amélias, as mulheres de verdade.
Todas as segundas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).
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