Por Silvana Duailibe
Acordei, sobressaltada, às seis da manhã de um sábado, com o celular tocando. Tocou a primeira vez, apertei o botãozinho pra desligar, voltei a dormir. Tocou a segunda vez. De tão cansada que estava, não tinha forças para mover os braços, mas me impressionou a insistência da pessoa, que não desligava! A música da chamada tocou quase inteira! Foi quando resolvi atender. Não era possível que fosse uma bobagem e, muito menos, um engano!...
Era uma velha conhecida minha, exercitando o seu habitual vampirismo. Não havia urgência alguma, ninguém estava em perigo, nem era caso de depressão, desespero, nada disso... Simplesmente, ela queria que eu dissesse a ela qual a impressão que eu tinha dela, “de verdade”, e, conseqüentemente, qual a impressão que eu achava que ela causava nas pessoas. Pode uma coisa dessas?!
Se ela estivesse na minha frente, naquele momento, acho que eu teria pulado no seu pescoço para esganá-la. Mas, era ela que estava no meu, outra vez, mordendo para extrair um pouco mais de sangue.
Ela já havia feito coisas parecidas e até piores, algumas vezes. Eu dei um basta e me afastei, por um bom tempo. Mas, talvez, eu não tenha sido suficientemente enfática para demonstrar o quanto me sentia sugada, pois ela voltava, agora, com forças renovadas, tentando repetir a vampiragem.
Dessa vez, entretanto, o chega pra lá foi pesado e eu creio que me livrei, definitivamente, dela e da sua mórbida “amizade”.
Atitudes vampirescas assim são muitíssimo comuns e acho até que todos corremos o risco de praticá-las em alguns momentos, principalmente quando nos sentimos desamparados ou muito carentes. Mas, apesar de compreensíveis, devemos perceber tais atitudes e procurar evitá-las, ao máximo, pois é dessa forma que se estabelecem os relacionamentos doentios.
Namoros viciados, casamentos perversos, amizades desiguais, relações de pais e filhos conturbadas e distorcidas... Quantas vezes nos vemos diante de vampiros disfarçados de gente e, despreparados, nos deixamos exaurir, até que tenhamos ou não consciência disso, um dia?
Em geral, os morcegões testam suas vítimas, primeiro – uma mordidinha aqui, outra ali... A reação da pessoa é que vai definir a continuidade da sangria. E existem pessoas desavisadas ou mesmo ingênuas, mas burras, insensíveis ao ponto de não perceberem os golpes, em algum momento, acho difícil.
Na verdade, os vampiros bem sucedidos agem em parceria com os seus alvos; é uma relação do tipo sado-masoquista em que um se alimenta da nóia do outro.
Vampiros que se prezem são também bonzinhos e se vestem de vítimas de alguma ou de várias circunstâncias. Ou são do tipo que farejam desgraça – aquele amigo ou amiga que pergunta: “ Você está bem, mesmo? Tem certeza?” Se você não está, é a sopa no mel; ele ou ela te dá a mão, o braço, o ombro, chora e se descabela com você, mas você não entende o sorriso amarelo que vê no seu rosto, quando, dias depois, você comunica que tudo se resolveu e que, agora, sua vida é só felicidade.
Os morcegos são sedutores, insistentes, observadores e verdadeiramente teatrais. São capazes de malabarismos para atacar o seu lindo pescocinho. Ah, e nem sempre têm a clara consciência do que fazem, viu? Podem mentir para si mesmos e acreditar piamente na mentira, que é a própria generosidade ou o destino cruel que desenharam para si mesmos.
Psicopatas são vampiros, mas nem todo vampiro é psicopata. Há morceguinhos e morcegões.
Deus me livre, sai pra lá, esconjuro, pé de pato, mangalô três vezes!
(Todas as segundas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).
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