Poderiam se chamar Conceição, Aparecida, das Dores, nomes tão cotidianamente bonitos e comuns ... Mas, isso pouco importa. Foram duas legítimas representantes das mulheres do Brasil.
Ocorreu-me escrever sobre essas duas brasileiras, pelo seu papel diametralmente oposto do ponto de vista político e social, apesar de extremamente representativo do nosso perfil.
Ruth e Marisa.
O título de primeira-dama assume nuances bem diferentes quando envolve uma e outra dessas eminentes figuras, o que as torna uma rica fonte de análise do comportamento de todo um povo.
Sem nenhum compromisso partidário, tentemos ver Ruth, a mulher e Marisa, a mulher e as aproximemos da nossa vã realidade. Uma e outra fazem parte do nosso dia-a-dia, do nosso lazer ou trabalho, da nossa vizinhança, já que todos conhecemos muitas Marisas e talvez algumas Ruths.
Aqui, elas nos levarão a refletir sobre quem somos e o que buscamos.
Neste texto não há palmadas e nem afagos, apenas uma breve e, espero, clara exposição de uma comparação recente em nossa história, que pode funcionar como um relativo termômetro. São duas mulheres em destacadas posições, agindo de acordo com a sua perspectiva de mundo.
Tanto uma quanto a outra chegaram a uma comum posição, pelo trabalho dos respectivos maridos; entretanto, as trajetórias do cargo fazem delas mulheres totalmente diferentes na postura e na ação, mas nem por isso menos dignas do nosso respeito, pelo contrário. Ruth e Marisa são um pequeno espelho, nada distorcido, do cenário feminino do nosso país.
A seu tempo, as duas foram reverenciadas e criticadas. Normal, pois, quando os holofotes algo enfocam com tanta freqüência, os olhares que para lá convergem são os mais diversificados. Porém, Ruth teve criticados projetos comunitários, enquanto Marisa foi alvejada por trabalhar apenas em prol de projetos pessoais. Ruth foi acusada de pouca vaidade física e muita vaidade intelectual; Marisa, de excessivas cirurgias plásticas e nenhuma intervenção social.
O que tivemos com Ruth foi a presença da mulher instruída e engajada, que se utilizou do próprio conhecimento para distribuir o seu trabalho, ainda que fosse atrelada ao marido. Marisa representou as brasileiras esposas e mães, empenhadas em fazer felizes os seus.
Ruth simboliza, até hoje, a brasileira que ocupou os bancos das universidades e que levou à prática idéias elaboradas às custas de uma inteligência privilegiada e de muito estudo.
Mas, quem, no Brasil, especialmente entre nós, mulheres, recebe incentivo para tais empreitadas? Quantas mestres e doutoras existem entre nós? Quantas mentes femininas, no Brasil, são estimuladas no seu cognitivo? Poucas, pouquíssimas.
Marisa é o autêntico símbolo da grande massa de mulheres criadas para o lar e para fazerem boas figuras. Desse grupo, até participam trabalhadoras, mas o seu trabalho é apêndice, não todo; o estudo, então, nem se fala! Quando ele está presente em suas vidas, sofre atropelos de todo tipo, até o convencimento total da sua pouca utilidade.
É verdade que nós, brasileiras, chegamos a melhores patamares, em termos de número nas universidades, mas também é verdade que dar continuidade a uma carreira de sucesso, com todas as suas exigências, faz decaírem muito os nossos índices de avanço.
Na nossa esmagadora maioria, continuamos a abrir mão de cursos e de profissões que requeiram tudo que for incompatível com o projeto “marido e filhos”.
Marisa, uma descendente de imigrantes italianos, como ela faz questão de lembrar, casada duas vezes, mãe de quatro filhos e ex-trabalhadora, fez jus ao título de primeira-dama, vazio em quase tudo, mas cheio de “glamour”. Não poderia ser diferente, quando se trata de alguém que se orgulha de ser apenas a costela do outro.
Ruth, antropóloga e professora, mãe de três filhos, que, durante o mandato do marido, chegou a viajar para a Rússia tendo ao lado um presidente orgulhoso como mero “acompanhante”, já que era ela a palestrante convidada, rechaçou o título por considerá-lo “uma caricatura”, dando a ele, no entanto, o brilho genuíno de alguém com luz própria.
É fundamental o respeito à livre opção de cada um, mas também é fundamental que se pense em qual espelho pretendemos nos mirar, em pleno século XXI, lembrando que gerações e gerações de brasileirinhas ainda estão por vir.
(Agora todas as segundas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).
Para comentar este texto envie um e-mail para silvanaduailibe@alexpalhano.com.br
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