Por Silvana Duailibe
Avó não é lá grande coisa!... Ou é muita coisa!... Vai depender dos netinhos. São eles que decidem isso.
Eu não quero nem saber... Me valendo do direito recém adquirido de babar a minha blusa, também me sinto na obrigação de ajudar a educar esse (por enquanto) pinguinho de gente. Afinal, amar não é só ficar de quatro, com cara de bobo (a), repetindo besteiras; é querer ver a pessoa amada bem no contexto e de bem consigo mesma.
Então, Valentina e todos os que virão, saberão decidir, pelas próprias cabecinhas, se eu valho alguma coisa; entretanto, eu serei sempre, como avó, tão absolutamente fiel a mim mesma quanto sempre fui em todas as outras circunstâncias. E isso inclui não ser omissa.
Se aos pais cabe a tarefa do sustento de “n” coisas e o suado vai-e-vem do cotidiano, aos avós resta o bem bom dos alegres encontros. Eu aproveito cada pedacinho disso, mas, de forma lúdica e carinhosa, vou tentando transmitir o que tenho aprendido, ao longo da vida.
Deito e rolo com a minha neta, conto histórias reais e inventadas, brinco, viro palhaça, dou banho, dou comida e remédio, passeamos, assistimos a desenhos animados, velo seu sono... É tudo pleno, uma delícia!
E já converso muito com ela, mesmo sendo ainda um bebê. Posso, portanto, imaginar as nossas conversas, quando ela estiver já crescidinha:
- Vó, não gosto dessa roupa... Por que eu tenho de usá-la?
- Por que você não gosta? Ela aperta, te incomoda, te impede de ficar à vontade? Então, diga à sua mamãe que não quer mais usá-la, explique porque e pronto.
- Mas, vó, e se a minha mãe não concordar e quiser me obrigar a usar?
- Aí, você também insiste que não quer e pergunta se a sua opinião não vale de nada...
Penso que necessidades como saúde, noções de perigo, respeito ao próximo, estudos e boa educação são questões de grande relevância e, de certa forma, inquestionáveis, exigindo pulso dos pais para com os filhos. Quem disse que crianças e jovens não gostam de limites mentiu redondamente.
Mas, roupas, opções de lazer e certas vaidades ou frivolidades podem ser apenas imposições vazias. Dessa forma, vou ajudar meus netos a negociar, por que não?
A começar pela Valentina, que já presta atenção ao que falo, com seus olhões lindos a me encararem, vou apontando caminhos, suavemente, sem ser chata e, muito menos, dona da verdade.
A linguagem evoluirá, no mesmo compasso do desenvolvimento dela, mas a o conteúdo será:
“Estude, leve as coisas a sério, mas, sobretudo, escolha se aprofundar naquilo que você realmente gosta, pois o trabalho é como o olho de um tornado, para onde todas as coisas convergem e, se ele não for bom, o desequilíbrio é geral. Se, ao contrário, ele for gratificante, vai sustentar a tua vida e te ajudar a dar a volta por cima, sempre, em quaisquer situações.
“Seja prudente, vá com calma. É permitido soltar o freio, claro, principalmente quando se tratar de expor amor, carinho e compaixão, que nunca têm contra-indicações, mas raiva e confiança exigem filtros protetores.”
“Namore, namore muito. Permita-se conhecer muitas pessoas, apaixonar-se, sofrer, encantar-se e desencantar-se, mas, sobretudo, também vá se namorando, paralelamente, apaixonando-se por si mesma(o), aos poucos. Eu nunca conheci ninguém que amasse verdadeiramente a outra pessoa sem amar a si mesmo, em primeiro lugar.”
“ Tente não fazer julgamentos. Não faça coro a idéias e opiniões cujos alvos e objetos você desconhece. Nesse caso, omitir-se pode apagar incêndios desnecessários.”
“Não tenha medo de dizer não, pois só assim o sim terá o seu real valor.”
“Mude, sempre que sentir importante. O que os outros vão pensar? Ah, isso é com eles. Depois de nós mesmos, há pouquíssimas pessoas no mundo a quem devemos explicações.”
“Perdoe-se e se permita, duas palavrinhas que fazem milagres! ”
“Aperfeiçoe a capacidade de minimizar o que é ruim e jogue tudo que já foi e não é mais no departamento do “perdidos para sempre”, sem choro nem vela. Nosso compromisso é com a felicidade, agora.”
“E nunca, nunca se esqueça: a vó também é alguém que aprende o tempo todo, inclusive com você.”
(Todas as quintas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).
Para comentar este texto envie um e-mail para silvanaduailibe@alexpalhano.com.br
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