Ruy Barbosa escreveu, com toda propriedade: “Há tantos burros mandando em homens de inteligência que, muitas vezes, fico pensando se a burrice não será uma ciência”.
Fechar-se e cercar o quintal não tem nenhum valor para a coletividade, mas pode ser muito útil individualmente.
Seria fácil abrir as portas, ou até mesmo derrubar a cerca. Afinal, há flores e frutos em demasia. Mas, quem, de livre e espontânea humildade, fará isso? Ninguém.
Pergunte a qualquer pessoa se ela se acha feia. Ela jamais dirá que sim e está sendo sincera. Um defeitinho aqui, outro ali, sim, mas feia, nunca!
O mesmo acontece com o mau caráter. Ele até pode se achar meio safado, de vez em quando, mas é tudo coisinha boba e sempre para se defender, ora!
O mau político se convencerá, desde cedo, de que um poço e uma hidrelétrica são a mesma coisa, assim como não há quase diferença entre o asfalto vagabundo que finalmente recobre a rua principal de um lugarejo e a própria Champs-Élysées.
Reter para si o que, de direito, é de todos pode também ser encarado como um grande mérito.
Existe uma multidão de belos, de inteligentes, de cultos e de capazes andando em volta do quintal. E todos tão senhores quanto. Mas, o cercado é de arame farpado, de difícil ultrapassagem.
Percebo que quem tem real valor é tímido ou é tão nobre e superior que abstém-se do poder para melhor desenvolver a si mesmo e às suas aptidões. Ou é possuído de tamanha ética, que evita confrontos capazes de feri-la.
Por sua vez, inteligência, beleza e capacidade também incomodam. A virtude sofre sempre múltiplos revezes, vindos de um ambiente hostil, de maioria medíocre.
Sempre que um lúcido pensamento ecoa ou uma luz brilha na escuridão, as pedras rolam; mas, observem, quem mexe os pauzinhos e monta arapucas é o raciocínio raso.
É como uma mulher bonita e gostosa entrando num recinto. Impacto total. A baixa trupe da meia boca inicia, então, seu mesquinho trabalho de denegrir a imagem da bela. E, algumas vezes, consegue. Se não podem lhe roubar a beleza e a gostosura, atribuem-lhe defeitos morais.
Assim, o quintal vai se perpetuando em mãos erradas. Porque quem o mantém fechado e não compartilha o pomar é quem não tem o mínimo problema em puxar o tapete do outro, é quem manda pro espaço qualquer escrúpulo, é quem acha muito normal sacanear o outro. Qual é o problema? Que se dane!
A inteligência emocional é um item básico na bagagem de quem pretende se jogar no mundo. Isso engloba o instinto de auto-preservação e de auto-defesa, assim como o impulso de luta.
Uma selva nos espreita e as feras, em sua grande maioria, são limitadas física e intelectualmente, mas apresentam as maiores e mais afiadas garras.
É preciso coragem para enfrentá-las, mas, antes da coragem, é preciso malícia. Inteligência e esperteza são coisas diferentes, que deveriam, no entanto, se completar.
Quem aprendeu a enxergar tudo apenas pelo filtro da pureza tem o seu lugar garantido no céu; só que não é justo se ter que morrer para, só então, usufruir. Portanto, não percamos tempo com o paradigma judaico-cristão do bom coração.
É preferível a assertividade. Já que o inferno é aqui mesmo, o paraíso pode ser também.
(Todas as quintas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).
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