Por Silvana Duailibe
Psiuuuu!... Silêncio... Ouça a sua voz interior.
Voz interior? Mas, o que é isso? Será um diabinho que teima em nos empurrar ladeira abaixo, de vez em quando, ou um anjinho cacheado que sussurra “paciência!”, “calma!”, sempre que o diabinho vem?
Voz interior, sexto sentido, “insight”... Sabemos que existe e que se manifesta, mas quantos de nós lhe damos valor?
Eu aprendi a prestar atenção à minha intuição, depois de muitas cabeçadas. Era como se ela (a minha intuição) me dissesse –“Tá vendo? Bem que eu te avisei!” E parece que com isso o sofrimento/arrependimento aumenta.
Atender à intuição não é tarefa das mais simples, não, a não ser que você seja uma pessoa tão convictamente intuitiva desde criancinha que jamais tenha cedido às censuras do meio em que vive.
Eu, criada em colégio de freiras, cresci ouvindo a tese de que “todo mundo tem bom coração, boas intenções e basta saber enxergar”. Não é verdade. Da mesma forma, não é verdade que “as pessoas mudam”, pois essa não é uma afirmativa, apenas uma possibilidade.
Se a intuição avisa para não confiar, por que apostar?
Hoje, muitos erros e acertos depois, promovi o meu próprio Jiminy Cricket à categoria de bússola. A consciência sábia e bem-humorada de Pinóquio, aquela que controla o estica - encolhe do seu nariz, é também, hoje, o meu oráculo, onde busco ajuda, todas as vezes em que me encontro num impasse.
Outras vezes, não há impasse algum aparente e mesmo assim o grilo faz barulho. Opa, então, convém parar e dar ouvidos a ele!
Se somos convidados a assumir um cargo importante, ou a mudar de emprego, ou a mudar de cidade, parte do nosso cérebro não pára de trabalhar, pesando os prós e os contras de cada decisão possível. Mas, no mesmo compasso, uma outra pequena e espalhafatosa parte, escondida num emaranhado de neurônios, já sabe a resposta. De novo, por que não dar crédito ao grilo e deixá-lo livre para agir?
Podemos ter acabado de conhecer alguém que mexeu com a gente e, imediatamente, sentimos o ar se encher de promessas. Aguarde que o grilo vai cantar e nós saberemos se o canto é ou não é de alegria.
De outro modo, pode acontecer de termos atropelado o pobre grilo ao decidirmos por este ou aquele caminho, mas ele, perseverante sobrevivente, apesar de contrariado, continuar a cochichar aquilo que não queremos ouvir. É só uma questão de tempo. Logo, o barulho se tornará tão ensurdecedor que seremos obrigados a ceder aos seus cochichos.
Jader, um amigo que tem a minha idade, tem também anos luz de experiência à minha frente e o motivo disso nem são as vivências concretas, mas a constante obediência às cantorias do grilo, que fizeram dele um homem extremamente sagaz e mais protegido.
No nosso caminhar, todos vamos elegendo o que nos faz bem e o que nos faz mal, sob diversos critérios. Algumas pessoas mais cedo, outras mais tarde, vamos tomando a nossa vida nas mãos e cuidando dela com mais e mais carinho. Os nossos “insights” são nossos preciosos faróis.
O racional e o espiritual se misturam na composição do nosso grilo, mas, não importando de que matéria ele seja feito, ele habita em todos nós, homens e mulheres, nasce conosco, é nosso amigo e nos fala sempre a verdade, seja ela inconveniente ou não.
O sexto sentido não é privilégio de nenhum sexo, de nenhuma idade. É privilégio de quem o identifica e aprende a respeitá-lo.
Eu descobri também que ele nunca dorme e não morre antes de nós. Então, se ele andar quieto e calado, significa que as escolhas têm sido feitas em sua parceria.
Psiiiuuuu!... Silêncio... Deixe o seu grilo cantar.
(Todas as quintas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).
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