"Não provoque: é cor de rosa choque!!!"

A REBIMBOCA DA PARAFUSETA. SILVANA DUAILIBE SEGUE ARRASANDO...
 

Por Silvana Dualibe

Odeio clichês, mas, o que posso fazer se a maioria das pessoas acha mais fácil seguir esse raciocínio, ou melhor, seguir raciocínio nenhum?... Primeiro clichê, manjadíssimo: mulher não entende nada de máquina. Segundo: se for loura, então, pode amarrar a carroça nela!

E lá estou eu, toda loura, na beira de uma rodovia, com o carro cheio de bugingangas, a caminho de uma festa de confraternização, pleno dezembro,  com um olho no pneu e o outro na estrada. Havia me dado 10 minutos apenas a mais, até eu mesma fazer o serviço. Antes disso, no entanto, valeria a pena apostar na ajuda de algum cavalheiro, afinal, se os homens são mais fortes fisicamente e se têm mais intimidade com o universo de pneus e rodas, por que eu ia suar a minha blusinha lilás e  as mãos, de unhas recém-arrumadas e pintadas? Eu ia aguardar um pouco, ainda que estivesse a alguns quilômetros da cidade mais próxima e cercada apenas de casas cujos moradores seguramente pouco contato tinham com automóveis.

Os 10 minutinhos foram a conta certa para parar um carro imediatamente atrás do meu e dele saírem dois vitaminados mancebos. Não sei exatamente o que motivou aquela ajuda, mas posso imaginar que eles também tenham pensado que eu era doida, ali, parada, com o pneu arriado e sozinha. De qualquer forma, esse foi um pensamento logo afastado, quando viram a cabeça de uma pessoa no banco do carona. Era a minha empregada, que aproveitava a minha viagem para rever parentes no interior. Se eles tinham pensado em tirar algum proveito tranquilo da situação, portanto, quebraram logo a cara. Deixei Cotê, a minha acompanhante, estrategicamente no carro, para evitar que a vissem de corpo inteiro, pois era uma senhora de meia idade, e a aconselhei a só mexer a cabeça, sem se virar muito, para que ninguém sequer enxergasse  o seu rosto.

Eu já havia retirado o kit de sobrevivência do carro e só precisaria abri-lo, para começar a usar o macaco e a chave de roda. Os rapazes viram o embrulhinho debaixo do meu braço e foram logo perguntando, sem disfarçar o ar de deboche: “O que você pretende fazer com isso aí? Você pode nos emprestar?” Eu já previa a piada... Afinal, o que eu poderia esperar, se a cena que se formara era de uma loura, de shorts, camiseta, rasteirinha, rabo-de-cavalo e óculos escuros à  beira de uma estrada, com o carro torto e encostado, debaixo de um sol escaldante, esperando socorro? Ora, ora...

Bem, mordi a língua e apenas entreguei o kit a eles. Caminhei, então, até o porta-malas para retirar o estepe. Nesse momento, o mesmo “gentil” cavalheiro que acabara de me fazer a pergunta reclamou: “Não se preocupe, pegamos o pneu de socorro pra você, também. Pode ficar sentadinha ali.” E me apontou até o lugar, em cima de uma pedra, onde eu poderia me acomodar na sombra.

Estaria tudo perfeitamente civilizado se o outro, que até então se mantivera mais quieto, não inventasse de abrir o capô do carro para verificar o motor. Foi abrindo e dizendo, com ares de sedução: “Você, como toda mulher, deve ter vindo sem verificar a situação geral do carro. Não me admira nada se o motor estiver precisando de uma boa revisão! Vou dar uma olhada.” Eu, que humilde e confortavelmente me recolhia na minha sombra, parei. Ajuda é bom e eu gosto e, por uma questão de educação, deixam-se até passar algumas bobas coisinhas nessa vida, em nome da boa convivência, mas engolir sapo não faz o meu perfil, de jeito nenhum. Aquele blábláblá que poderia parecer cantada para ouvidos mais inocentes, nos meus eram chulos e inconvenientes insultos.

Os rapazes estavam ocupados, um tentando encaixar o macaco e o outro, verificando o óleo, quando eu me aproximei do motor e falei bem alto, pra ser ouvida do povoado mais próximo ao mais distante: “O óleo do motor foi trocado no início da semana, assim como o do freio. Aproveitei para alinhar os pneus, pois essa quantidade de buracos da cidade estava fazendo com que houvesse um desgaste irregular na borracha. Os amortecedores, assim como o catalisador também foram checados, por conta das lombadas e dos tais buracos, que acabam com a vida útil desses dispositivos e o meu carro já tem 2 anos.”

O mocinho ficou com as duas mãos suspensas no ar, paralisado, e foi virando a cabeça aos pouquinhos na minha direção. Eu estava bem perto dele, de propósito, com as mãos na cintura e olhando, candidamente, ora para o motor ora para ele. Continuei, alto e bom som: “Inclusive, nunca deixo superlotar o tanque de combustível para evitar que o catalisador se deteriore.” O sabichão, então, não se agüentou e falou: “Mas, seu carro não tem carburador, princesa... Não precisa se preocupar com isso.” Aí, quem não pôde se agüentar fui eu: “Mas, lindinho, na injeção eletrônica também dá problema se enchermos demais o tanque, pois a bomba elétrica pode ser danificada!” Ele me olhava nos olhos, como se quisesse entender que diabo de mulher era aquela. Deliciada, continuei: “Sabe, acho que tá tudo bem aí. A não ser que tenham esquecido de revisar alguma coisa; aproveite e verifique pra mim se a correia do motor está em bom estado, pois ela nunca foi trocada, apesar de eu rodar pouco”. 

Virei para ver o andamento dos trabalhos no meu pneu e me deparei com o segundo rapaz, já sem camisa, apoiado no carro e aparentando achar graça do diálogo que acabara de presenciar. Ele me perguntou: “É claro que você também troca pneu, né?”  E eu: “Só quando é necessário.” Dei as costas, saí caminhando e sentei na pedra. Dei uma piscadela de olho para Cotê, a minha fiel escudeira, que se assusta por qualquer coisa e, é claro, a uma altura daquelas, deveria estar em pânico; portanto, era preciso transmitir confiança a ela e animá-la.

O machão do motor continuava escarafunchando tudo, à procura de algo, enquanto o seu amigo concluía a troca do pneu. Eu, sentada adiante, me divertia, imaginando o que se passava na cabecinha de ambos, enquanto esperava, pacientemente. De vez enquando, os dois me davam uma espiada pelo canto do olho. Até que se encerraram os trabalhos e se iniciaram as despedidas. Eu falei: “Tudo certo, então? Puxa, obrigada, vocês foram muito gentis em me prestar ajuda. Fazer isso sozinha teria sido muito estressante.” Nesse momento, eu não era mais você. Passei a ser tratada de senhora pra cá, senhora pra lá. Obrigada, não há de quê, vão com Deus, a senhora também, querem um pouco de água?, não senhora, obrigado.

Fim de um acontecimento. Não o fim de uma situação, que se repete dessa e de outras maneiras, enfatizando sempre um estado de dependência e desamparo feminino, um velho e conhecido clichê. É a mulher que não consegue manejar um controle remoto, ou a outra, para a qual manusear um pen-drive é coisa do outro mundo, ou aquela que, de carro, só conhece os principais controles e a entrada para a gasolina, quando muito. Existem algumas que anos de uso de celular não são capazes de sensibilizar para a descoberta de novas funções e permanecem “orgulhosamente” no básico do básico. Nada contra o uso opcional do celular, mas a recusa teimosa em se abrir para novas possibilidades práticas soa como incompetência e/ou intransigência, não?

Ainda que tenhamos anos-luz de avanço em relação ao passado, muitas mulheres no presente parecem até achar bonito se comportar como “mulherzinhas” sem futuro e eternas “sem miolo”. Não é de estranhar, então, o fato de tantos homens, jovens ou velhos, apresentarem comportamento tão abominável e autoritário em relação a nós. Somos, em grande parte, mentoras dessas e de outras idéias de jirico que povoam as mentes masculinas.

No passado, era comum se ouvir das mães conselhos como – “seja comedida, seja tímida, aparente saber menos, é mais feminino, os homens apreciam mais, não seja tão agressiva, não seja tão curiosa, isso assusta os homens, assim você não casa...”- e por aí vai. Mulheres da minha geração foram bombardeadas por conselhos acachapantes como esses. Quem se salvou desses conselhos, sobreviveu heroicamente. Quem não se salvou, não só afundou o seu barco de ilusões, como deixou um rastro de óleo queimado, poluindo um mar de outras pobres criaturas.

Considero os dois rapazes que pararam para me ajudar duas dessas pobres e poluídas heranças, que, só não fizeram a festa às minhas custas, naquele dia, porque foram surpreendidos (e nocalteados) por um comportamento totalmente estranho aos seus frágeis conceitos.

E eu me pergunto: se jovens de vinte e poucos anos do século XXI ainda associam feminilidade com ignorância e sensualidade com burrice, até onde e até quando esse rastro de óleo venenoso e estéril vai se espalhar e poluir?

PS:. Para comentar este artigo envie um e-mail para silvanaduailibe@alexpalhano.com.br

(Todas as quintas, um novo texto de Silvana Duailibe aqui no site. Silvana é odontopediatra, professora de Odontologia do Uniceuma, troante e mulher).

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